Como precificar um produto sem copiar o preço do concorrente
O concorrente paga outro imposto, tem outro aluguel e outra folha. Copiar o preço dele é apostar que os seus custos são iguais — e nunca são.
Por Equipe CNPJ Contábil
· 4 min de leitura
O jeito mais comum de precificar é olhar o concorrente e cobrar um pouco menos. O problema é que o concorrente paga outro imposto, tem outro aluguel, outra folha, outro fornecedor e outra margem. Copiar o preço dele é apostar que os seus custos são iguais aos dele — e nunca são. Quem entra num mercado cobrando "o menor preço" sem saber o próprio custo está, na melhor hipótese, trabalhando de graça.
O preço se monta de dentro para fora. O mercado entra no fim, como teste.
1. Custo direto
O que vai dentro de cada unidade vendida. Para uma peça de roupa: tecido, aviamento, costura (própria ou terceirizada), embalagem. Para mercadoria revendida: o preço pago ao fornecedor mais o frete de vir até você. Para serviço: as horas de quem executa, ao custo cheio da hora, mais material usado.
Meça por unidade, com base no que foi pago de verdade, não no que estava na tabela do fornecedor há seis meses.
2. Custo fixo rateado
Aluguel, folha administrativa, contador, sistema, luz, pró-labore: tudo que vence com venda zero. Some o mês e divida pelo número de unidades que a empresa vende num mês normal. Esse é o quanto cada unidade precisa carregar de estrutura.
Aqui mora o erro mais frequente: ratear pela venda que se gostaria de ter. Se a empresa vende 400 peças por mês, o fixo se divide por 400 — não por 1.000. Ratear por volume otimista faz o preço parecer viável e o mês fechar no vermelho.
3. O que sai sobre a venda
Tudo que é percentual do preço e só existe quando a venda existe:
- Imposto. No Simples Nacional, é uma alíquota efetiva sobre o faturamento, que depende do anexo (comércio, indústria, serviço) e da faixa de receita dos últimos 12 meses. Comércio na primeira faixa começa em 4%; serviço, em 6%. Sobe conforme o faturamento.
- Taxa do canal. Maquininha e cartão levam um percentual; marketplace leva comissão mais, em muitos casos, tarifa fixa por item e frete subsidiado. Em faixas de preço baixas, a soma pode passar de 30% do que o cliente paga.
- Comissão de vendedor, se houver.
Esses percentuais não entram no custo — entram na fórmula, porque incidem sobre o preço final, que é a incógnita.
4. A margem
O que você quer que sobre, sobre o preço, depois de tudo. É a única decisão da fórmula; o resto é medição. Margem de 20% é comum em varejo; serviço costuma trabalhar com mais; revenda com giro rápido, com menos.
A fórmula
Preço = (custo direto + custo fixo por unidade) ÷ (1 − imposto − taxas − margem)
Exemplo: peça com custo direto de R$ 38, fixo rateado de R$ 12, vendida em marketplace com comissão de 20%, imposto efetivo de 5% e margem desejada de 15%:
- soma dos percentuais: 20% + 5% + 15% = 40%
- preço = (38 + 12) ÷ (1 − 0,40) = 50 ÷ 0,60 = R$ 83,33
Note o que aconteceu: R$ 50 de custo viraram R$ 83 de preço, e a margem "de 15%" é R$ 12,50 por peça. Quem tivesse dividido R$ 50 por 0,85 (esquecendo imposto e comissão) chegaria a R$ 58,80 — e perderia R$ 6 por peça vendida sem saber.
Margem de contribuição
Do preço, tire só o que é variável (custo direto, imposto, taxa, comissão). O que sobra é a margem de contribuição — o quanto cada venda contribui para pagar o fixo. No exemplo: 83,33 − 38 − 20,83 (imposto e comissão) = R$ 24,50 por peça.
Dividindo o fixo mensal pela margem de contribuição unitária, você tem o ponto de equilíbrio: quantas peças precisa vender para o mês não dar prejuízo. É o número mais útil que a precificação produz, e quase ninguém calcula.
Agora sim, o mercado
Com o preço montado, compare com o concorrente. Três situações:
- Seu preço é menor: você tem vantagem de custo, ou esqueceu algo. Confira o rateio.
- Está parecido: compita por outra coisa (prazo, atendimento, variedade), não por preço.
- Seu preço é maior: ou o produto precisa entregar algo que justifique, ou o custo está alto demais. Cortar a margem para "entrar no mercado" resolve por um mês; reduzir o custo resolve de verdade.
O concorrente serve para essa conferência. Não serve de base.
Um detalhe sobre degraus de taxa
Em marketplace, a comissão e a tarifa mudam por faixa de preço, e a mudança não é contínua: há preços em que cobrar R$ 2 a mais reduz o que você recebe, porque a venda pula para uma faixa mais cara. Antes de arredondar o preço final, vale conferir a tabela do canal. O preço certo às vezes é R$ 79,90 e não R$ 81,90 — não por psicologia, por aritmética.
Seu caso é específico?
Este texto é informativo e não substitui a análise do seu caso — número de anos omissos, regime e município mudam a conta. Mande a sua situação que eu digo se cabe e o que custa.
Leia também
Finanças da empresa
Controle financeiro da empresa: o mínimo que separa crescer de quebrarFinanças da empresa
Capital de giro: quanto sua empresa precisa e como calcularFinanças da empresa
Balanço e DRE: como ler as demonstrações contábeis da sua empresa